Terça-feira
Uma história sobre término ou sobre maturidade ou sobre um filho da puta que quase acabou comigo.
Ele terminou comigo numa terça-feira. E há algo profundamente coerente nisso. Quem termina numa terça quer parecer adulto. Quer acordar na quarta com a sensação de responsabilidade afetiva cumprida, como quem paga um boleto emocional antes do vencimento.
O discurso era sempre elegante: eu era jovem demais, intenso demais, emocional demais. Ele falava de maturidade como se tivesse patenteado o conceito — com o mesmo tom de quem fala de patrimônio: algo que se acumula, se exibe e se usa para medir os outros.
No começo, eu achei interessante. Parecia sofisticado estar com alguém que tratava sentimentos como tese. Depois percebi que a tese tinha sempre o mesmo objeto de estudo: eu. E, curiosamente, os resultados nunca me favoreciam.
A dinâmica se repetia com disciplina quase científica. Ele se afastava com a serenidade de quem sabe que será procurado. E eu procurava. Não imediatamente — eu também tinha meu orgulho performático — mas voltava. Voltava com argumentos melhores, postura mais contida, esperança revisada. Comecei a modular o tom de voz. A reduzir a empolgação. A fingir uma tranquilidade que nunca fora minha.
Logo eu, que nunca fui ciumento ou inseguro, comecei a medir minhas próprias reações como quem ajusta volume para não incomodar vizinhos imaginários.
Lenta e dolorosamente, fui percebendo que a autossabotagem não faz escândalo. Ela é discreta, bem-educada. Você chama de evolução pessoal. Diz que está aprendendo. Na prática, está só diminuindo o brilho para não ofuscar alguém que prefere luz indireta.
E, para ser justo, ele nunca foi explicitamente cruel. Ele gostava da minha companhia. Gostava ainda mais de saber o quanto eu gostava dele. Ser admirado é sempre uma posição confortável. E ele ocupava esse lugar com naturalidade quase profissional.
Foi então que a pergunta começou a ganhar corpo. Um ruído constante, daqueles que você tenta ignorar até perceber que está gritando por dentro:
Será que ele é, de fato, tão melhor que eu? Ou apenas quer que eu acredite nisso? Só repetiu isso tantas vezes que me convenceu?
Afinal, uma mentira contada repetidas e repetidas vezes… Quando alguém fala com convicção suficiente, a frieza começa a parecer maturidade e sabedoria. Porque é confortável ocupar o lugar de quem está acima. Mais confortável ainda é ter alguém disposto a subir na ponta dos pés para te alcançar.
No fim, talvez ele só estivesse habituado a sentir menos e categorizado pretensiosamente a atitude como evolução pessoal, mas sentir menos não é evolução. É preguiça emocional disfarçada de estabilidade.
E resumindo a ópera: eu cresci. Não para alcançar alguém, mas para parar de competir numa hierarquia que só existia na cabeça de quem precisava dela.


A parte sobre parar de competir numa hierarquia que só existe na cabeça do outro me acertou forte. Já me peguei ajustando "o volume" em relacionamentos, achando que estava evoluindo quando na verdade estava só me apagando. Ótimo texto!
Já senti muito (não tudo) sobre o que você fala no texto amgo, expectativas nunca alcançáveis. Texto forte, bem forte