Evoluímos
Pena que foi pra isso
Essa semana li um livro por recomendação do queridíssimo Rodrigo Guedes, meu companheiro do Clube de Escritores (ou Clube dos Sub, como eu apelidei carinhosamente em minha própria cabeça).
Futuro Ancestral, de Ailton Krenak, é um livro curto, de pouco mais de 50 páginas, e que eu jamais imaginaria que levaria três dias inteiros para ler. Eu costumo devorar livros com o mesmo desespero que gays de meia-idade devoram twinks na Rua Augusta, mas ler Krenak é uma experiência curiosa, porque ele faz algo que a humanidade odeia: tira a gente do centro da história.
E não com agressividade. Com calma. O que é ainda pior.
Krenak sugere — com a tranquilidade de quem observa rios há mais tempo do que a gente observa telas — que talvez o futuro não seja essa obsessão histérica por inovação, atualização e progresso, mas algo bem mais constrangedor: lembrar. Voltar. Reaprender. Ou, no mínimo, parar de fingir que estamos indo para algum lugar muito impressionante.
Porque, se formos honestos, a tal da “evolução humana” anda meio decepcionante.
Nós aprendemos a atravessar oceanos, mas esquecemos como atravessar uma conversa sem transformar tudo em disputa. Construímos cidades inteligentes que não sabem lidar com chuva, calor ou gente. Criamos tecnologias capazes de simular a vida enquanto seguimos absolutamente incompetentes em sustentá-la.
É curioso como chamamos isso de avanço.
O ser humano moderno olha para a natureza como quem olha para um aplicativo antigo: algo que funcionava antes, mas que claramente precisa ser substituído por uma versão mais eficiente (de preferência monetizável). O problema é que, nesse processo, seguimos destruindo o sistema operacional que mantém tudo ligado, enquanto comemoramos pequenas melhorias na interface.
Krenak não propõe um retorno romântico à floresta nem um manual de salvação espiritual. Ele faz algo mais incômodo: aponta que a ideia de humanidade como protagonista absoluta do planeta é, no mínimo, um erro de interpretação — e, no máximo, um delírio coletivo com prazo de validade.
Nós nos colocamos como ápice da evolução, mas passamos boa parte do tempo produzindo lixo, ruído, esgotamento e uma sensação constante de urgência sem finalidade. Chamamos isso de civilização. Chamamos isso de sucesso. Chamamos isso de normal.
Talvez o problema seja justamente esse: normalizamos o colapso.
E fazemos isso com eficiência impressionante. O capitalismo conseguiu transformar até a destruição em produto. Vendemos a ideia de crescimento infinito num planeta obviamente finito e ainda nos chamamos de racionais por isso. Extraímos tudo, esgotamos tudo, privatizamos tudo, inclusive o tempo, o descanso e a possibilidade de imaginar outro modo de existir, e depois fingimos surpresa quando nada mais funciona.
A urbanização virou o grande monumento dessa inteligência torta. Empilhamos pessoas em caixas de concreto, afastamos o céu, impermeabilizamos o solo e chamamos isso de progresso. Criamos cidades que adoecem quem vive nelas, mas oferecem farmácias 24 horas como compensação. É um sistema elegante: primeiro você cria o problema; depois, vende a solução.
Enquanto isso, povos que nunca abandonaram a noção de pertencimento à terra seguem sendo tratados como atrasados, primitivos ou folclóricos. Claro, até o momento em que alguma tragédia ambiental acontece e todo mundo corre para citar saberes ancestrais como se fossem uma novidade inspiradora descoberta por acaso.
O futuro ancestral de Krenak é quase uma ironia elegante: ele nos lembra que aquilo que chamamos de “passado” nunca deixou de ser atual. Fomos nós que decidimos parar de escutar. Preferimos acelerar, produzir, competir e otimizar tudo — inclusive a própria extinção.
E aqui estamos. Evoluídos. Ansiosos. Doentes. Sozinhos.
Com gráficos, metas, relatórios e notificações.
Talvez a grande falha da humanidade não seja a falta de inteligência, mas o excesso de certeza. A convicção quase religiosa de que somos especiais demais para aprender com rios, florestas, montanhas ou qualquer forma de vida que não fale nossa língua, mesmo quando essas existências seguem funcionando muito melhor do que nós.
Ailton Krenak não escreve para oferecer conforto. Ele escreve para expor o constrangimento: o de perceber que, apesar de toda a tecnologia, seguimos incapazes de responder a perguntas básicas, como para quê e até quando. Preferimos perguntar quanto rende, quanto cresce e quanto custa, como se o planeta fosse um investimento mal administrado, e não a condição mínima para qualquer coisa existir.
Se isso é evolução, talvez o problema não seja o caminho, mas o conceito.
Talvez evoluir, como estamos entendendo, seja apenas sofisticar a própria burrice. Torná-la mais rápida, mais eficiente e melhor embalada. Uma burrice com Wi-Fi, delivery e discurso motivacional.
Ou, como Krenak sugere — com uma elegância que a humanidade definitivamente não merece — talvez o futuro não precise ser inventado. Só lembrado.
Mas isso exigiria algo que a nossa civilização evita com empenho:
humildade.
E sejamos sinceros: essa não parece muito a nossa especialidade.


Ótimo artigo, é impressionante pensar que sim, nos consideramos o topo da evolução, quando no passado também tínhamos tecnologias que mesmo hoje, não conseguimos reproduzir. Mal posso esperar para ler o livro, estou animada!
Aí que texto maravilhoso amigo, agora me deu vontade de ler o livro, parabéns ótima escrita. 🫂🥺